UM POETA DIANTE DO E-BOOK, Hugo Leal
Sou do tempo em que ser poeta era como se condenar a viver fora da vida... Chegar lá, subir a montanha que separa mortais e imortais, parecia trabalho para um Hércules que, decididamente, não habitava meu corpo raquítico de ex-seminarista, especializado em sonhar com o fardão da Academia.
Porque poetas eram apenas eles, monstros sagrados de talento inquestionável, enfurnados entre livros, saraus e esquisitices – estas últimas, indispensáveis e proporcionais à maestria dos eleitos.
Seus nomes, sussurrados com respeito e um certo tom subversivo, para que a rude plebe ignara não desconfiasse nunca de minha secreta inveja, soavam quase que como mantras a um Deus inacessível – a poesia feita carne, habitando entre nós!
Imaginem só com que sarcasmo se caía sobre o pretensioso que, mísero ser comum, ousasse ser um dia um deles, e expusesse seu “delírio” em público! Não... se imaginar poeta era ato perigoso, a não ser se cometido na mais completa invisibilidade.
Qualquer alusão a isso, e lá vinha a zombaria, letal como mordida de cobra: “poeta, é? E cadê seu livro?” Livro... artigo indispensável para poder usar o título de versejador, ainda que só ali no bairro, em fronteiras curtas como o percurso entre a casa e a escola. E livro legítimo, de própria autoria, só eles, os grandes, tinham...
E, é claro, alguns pequenos que, grandes de bolso, publicavam suas mediocridades para se diplomarem cultos, especiais, ilusão tão curta como longo o braço da vaidade...
Fazer o que? Ninguém é perfeito, nem mesmo as editoras, necessitadas do vil metal como qualquer um no mundo, feito por uma imensa massa crítica de iletrados. Gente que, se já odiava os poetas de verdade, por se sentirem menores, duplicava seu furor contra nós, os de mentirinha, que nem “livro próprio” tínhamos...
Gozado... Nem faz tanto tempo assim... Então, um belo dia, fazem no máximo 12 anos, Deus mandou liberar a Internet para todos os que, cansados da
catamilhografia das máquinas de escrever, optassem largar a escravatura do papel e “peceizassem” para sempre suas vidas, tornando gradualmente sua existência, pelo menos em parte, tão virtual quanto seus espíritos.
E os livros... ah, os livros se virtualizaram também, engolindo com avidez uma enorme dose de futuro. Para ingressarem na era cibernética, mudaram até de nome, e atendem agora por... e-books... E eu, como tantos outros “deslivrados” do planeta, podemos hoje, finalmente libertos da opressão aquisitiva das resmas de papel e das tintas tipográficas, ser poetas também, democraticamente oferecendo nossos anseios e devaneios líricos no milagre digital da rede...
Como se fossem nossas próprias almas, os e-books, sem celulose para os fazer sólidos, estão aí para antecipar o futuro e eternizar, na corrente eletrônica que engravata o novo mundo, um momento de gala para os que sonham, ingênua ou maduramente, cumprir uma existência no exercício da poesia...
E, vejam só, nem comecei nossa prosa sobre a prosa, e sobre o que o e-book a ela diria...
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Hugo Leal é escritor, poeta, administrador e sócio dos Sites Maytê e autor do e-book Memórias Postas antes que Póstumas.
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